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A hospitalidade e o nascimento da pólis

Antes que a Grécia inventasse a democracia, ela precisou inventar algo ainda mais elementar: a confiança entre estranhos.

O mundo homérico não era composto por Estados nacionais, mas por uma constelação de cidades, reinos e comunidades autônomas. Entre elas não existia uma autoridade superior capaz de garantir segurança, julgar conflitos ou assegurar direitos. Viajar significava atravessar territórios cuja organização política, costumes e alianças podiam ser completamente desconhecidos. O estrangeiro encontrava-se, por definição, em uma condição de vulnerabilidade.

É nesse contexto que surge a xenia, a lei sagrada da hospitalidade.

Mais do que uma virtude privada, ela constituía uma instituição moral. Receber um desconhecido, oferecer-lhe alimento, abrigo e proteção antes mesmo de perguntar quem era ou quais eram seus interesses significava reconhecer nele algo anterior a qualquer vínculo de sangue, tribo ou aliança política. O hóspede não era protegido porque pertencia ao mesmo povo. Era protegido porque era uma pessoa.

Não por acaso, a hospitalidade era colocada sob a tutela de Zeus Xenios. Violar essa relação não era apenas uma grosseria; era uma ofensa à própria ordem do mundo.

À primeira vista, pode parecer uma simples regra de boas maneiras. Na verdade, trata-se de uma das maiores revoluções antropológicas da Antiguidade.

Durante grande parte da história humana, a moralidade esteve circunscrita aos limites da comunidade. O dever terminava onde terminava o parentesco. Fora dele encontravam-se apenas rivais, inimigos ou desconhecidos cuja existência pouco impunha obrigações. A tribo organizava o universo moral, e o pertencimento definia quem merecia proteção.

A hospitalidade rompe parcialmente essa lógica.

Ela não elimina a importância da comunidade, mas introduz uma ideia nova: a de que alguém pode tornar-se objeto de deveres simplesmente por comparecer diante de nós como outro ser humano. A relação moral deixa de depender exclusivamente da identidade compartilhada e passa a nascer do encontro entre pessoas.

Essa transformação, embora discreta, prepara silenciosamente o terreno para a vida política.

Uma cidade não pode existir apenas como extensão de uma família numerosa. Tampouco pode reduzir todas as relações ao parentesco. À medida que o comércio se intensifica, as alianças se multiplicam e os cidadãos passam a conviver com estrangeiros, torna-se necessário construir uma ordem fundada não apenas no sangue, mas no reconhecimento recíproco.

A política começa precisamente nesse deslocamento.

Ela exige que o homem deixe de ser compreendido apenas como membro de um grupo e passe a ser reconhecido como agente. Um agente é alguém capaz de agir, prometer, responder por suas escolhas e assumir obrigações. Direitos e deveres deixam então de acompanhar exclusivamente a identidade coletiva para acompanhar a ação da pessoa.

Essa distinção parece evidente aos olhos modernos, mas representa uma conquista civilizatória extraordinária.

Há, entretanto, uma tendência permanente de retornar ao pensamento anterior.

Os seres humanos facilmente atribuem intenções, responsabilidades e até sentimentos a entidades que não agem. Fala-se em povos que desejam, classes que conspiram, raças que oprimem ou nações que odeiam, como se essas categorias abstratas possuíssem uma consciência única. Projetamos sobre coletividades as mesmas estruturas morais que pertencem às relações entre pessoas.

O problema dessa projeção não reside apenas em uma imprecisão conceitual.

Quando categorias coletivas passam a ocupar o lugar reservado aos agentes, também a responsabilidade se transforma. Já não importa quem realizou determinado ato, mas a qual grupo pertence seu autor. A identidade substitui a ação como fundamento do juízo moral.

É exatamente nesse ponto que a política começa a perder sua natureza.

O Estado de Direito não existe para administrar abstrações, mas para julgar ações. Ele não pergunta a qual raça, classe, religião ou povo alguém pertence. Pergunta o que fez, com que intenção agiu e por quais consequências deve responder. A responsabilidade acompanha a ação precisamente porque somente agentes podem deliberar, escolher e justificar seus atos.

Essa é talvez a maior diferença entre uma comunidade organizada pela lógica tribal e uma comunidade propriamente política. Na primeira, o pertencimento constitui o fundamento último das obrigações. Na segunda, é a pessoa que comparece diante da lei como sujeito responsável.

Os grandes conflitos do século XX mostraram quão frágil permanece essa conquista. Sempre que a política passa a amar ou odiar categorias inteiras, reaparece sob formas modernas uma antiga estrutura de pensamento. O indivíduo desaparece sob o peso da identidade coletiva, enquanto grupos inteiros passam a ser tratados como culpados ou virtuosos por definição. A responsabilidade dissolve-se novamente no pertencimento.

A antiga lei da hospitalidade recorda uma verdade que continua surpreendentemente atual. Receber o estrangeiro não significava ignorar diferenças, nem abolir fronteiras, tampouco dissolver as cidades em uma humanidade indiferenciada. Significava reconhecer que, antes de pertencer a qualquer povo, aquele homem comparecia diante de nós como alguém capaz de agir, de prometer, de honrar compromissos e de responder por suas escolhas.

É sobre esse reconhecimento que toda ordem política madura se edifica.

A política começa quando aprendemos que comunidades são indispensáveis, mas insuficientes; que identidades coletivas possuem realidade histórica, mas não personalidade moral; e que somente pessoas — nunca abstrações — podem ser portadoras de direitos, deveres e responsabilidades.

A hospitalidade grega permanece, assim, menos como uma lembrança de um costume antigo do que como uma metáfora permanente da civilização. Ela nos recorda que a paz entre cidades não nasce da eliminação das diferenças, mas da capacidade de reconhecer, no estrangeiro que bate à porta, não um representante de uma coletividade, mas um sujeito diante do qual assumimos obrigações precisamente porque ele é uma pessoa.

Escrito por FERNANDA G MACHADO, 20/07/2026, de Araçatuba-SP.

fernanda machado conteudo estrategicoFernanda é jornalista, cineasta, escritora e produtora, com experiência em grandes produções como “O Tempo e o Vento“. Dirigiu o documentário “Arapaima: Redes Produtivas“, reconhecido por seu impacto social. Foi responsável pelo projeto “Jovem Escritor“, que revelou talentos nas escolas públicas. Em 2024, produziu o curta “Fogo no Canavial“. É especialista em publicidade cultural e comunicação estratégica, com ampla experiência em gestão de projetos.

 

 

Por: Fernanda Gaiotto, com Conteúdo Estratégico.